do neo-canibalismo ao tretoterismo, o caótico corpus do movimento homeostético, suas tricas, sequelas, etc.

domingo, 12 de agosto de 2007

C. & E. (liberdade)



corrio depois de Eva & Adão,
ergue-se do braço da praia até à curva da baía,
traz-nos por uma commodius vicus de recirculação
de novo a Howth Castelo Earredores


James Joyce

Toda a liberdade depende das suas condições
de formação e de desenvolvimento,e,
uma vez emersa, permanece como liberdade retroagindo
sobre as condições de que é serva.


Morin


LIBERDADE. IGUALDADE. FRATERNIDADE. Este é o programa revolucionário, o único plano de ruptura efectivo: e como ruptura que é, é anti-kitsch. Formas novas, relações novas, comunicação nova. A fraternidade funciona aqui como segredo e conspiração: o objectivo é a tomada do poder, ou a abolição do mesmo. O que une os irmãos é uma ideologia, uma metodologia, uma técnica: «O melhor sentido de técnico que encontramos foi o seguinte: secreto, pessoal» (Almada).

«A tomada de consciência da anterioridade cronológica, ontológica, organizacional, do fraternalismo sobre o paternalismo constitui um progresso que não é únicamente teórico. Traz-nos uma mensagem política. A sagrada família biológica mostra-nos que o príncipio do irmão precede o príncipio da mãe, que precede o príncipio do pai, contrariamente ao paradigma reaccionário que hiertarquiza de modfo dito natural paternidade/maternidade/fraternidade.» (Morin)

Fecha-se um primeiro circulo e nele contido ressurge o fantasma da liberdade. A liberdade é aquela que satisfaz todos os desejos, e por isso é aquela que em si não alimenta nenhum desejo: satisfazer os desejos é transformar o mundo, transformar as linguagens, actuar sobre tudo e todos. Como oferenda. Como presente. Não de um modo repressivo. Dar. Dar-se.

Organizar o mundo a partir do zero: «se há um principio organizador, ele nasce de encontros aleatórios, na copulação da desordem e da ordem, pela e na catástrofe, isto é, na modificação da forma.» A catástrofe tem dois sentidos; um de revogação, de retroacção, de irreversibilidade (embora a retroacção seja um movimento contrariante dentro do sentido do movimento); e um outro, de actualização genésica, revivendo a criação do universo, o seu príncipio-fim.

The fall:
(bababadalgharagharakamminarronnkonnbronntonerronntuonnthunntrovarrhounawnskawnskawntoohoordenthurnuk!). A queda de Adão e de Babel ( e o regresso ao Éden e à condição de culpa feliz do status babélico), a morte do pai (e a sua ressurreição fraterna!).

Tendo em conta o projecto libertário (dar-se!) é forçoso evitar os erros que esse sacrifício possa ter: os erros de sentido e os erros de não-sentido. E convém ser o mais possível consciente do que se exprime. A consciência do que se exprime inclui na expressão as ambiguidades que desenvolve cada um a que se oferece desse um o caminho, desencadeando assim o seu segredo, o pessoal. Poder-se-á chamar catharsis? Será que desencadeia a consciência do próprio corpo? Consciencializar o seu corpo é conscencializar todos os corpos. O enigma de cada é o enigma do Todo, porque as partes são morfológicamente muito semelhantes ao Todo.

Existe aqui uma grande solidariedade e uma grande dessolidariedade. São as àguas do enigmático, do irrevelável, do inefável. A comunicação parece tomar uma forma telepática, invisível, mimética. Chamar-lhe-ei espontaneidade. Ser espontaneo é comunicar, não idealmente mas completamente.

As Utopias dependem apenas do seu uso . Usar é representar, é pôr à prova o conceito. O uso da Utopia é inevitávelmente auto-consciente.

Fraternidade é acção de grupo. O seu objectivo é a morte ou o derrube do Pai, tal como Zeus que escapou a Saturno libertando os seus irmãos. Liberdade é a passagem do estado contestatário, transgressivo, à maturidade, ao Estado Fraterno. É aqui que se podem incluyir os ritos de iniciação ou passagem. A Festa dolorosa. A luta fracticída (que pode incluir ou não a morte de irmãos). A passagem do profano ao sagrado. A morte para uma natureza meramente exterior e o renascimento para um mundo sem dicotomias interior/exterior. O meu corpo (a minha representação) é o Mundo.

A dádiva faz-se na festa, dolorosamente, no confronto corpo a corpo. Na descida ao mais imundo. No reverso do tabú que preversamente leva à regeneração do mesmo tábu.

A festa é a festa da igualdade. Tudo é permitido. Todos são iguais. Nenhum lugar é hierarquizado. O que os une é a circulariedade (e a circulação). O que os mantém é um centro invisível.

Fraternidade é Carnaval. É carne que vale. Cada um se mascara de si mesmo, não do rosto cultural (que repressivamente é o Pai). Depois vem a organização fraterna. O regresso à cultura. A uma cultura diferida feita de boas-intenções.

Representar a liberdade/igualdade/fraternidade é representar na liberdade/igualdade/fraternidade. Irracionalmente e conscientemente. Quer se queira quer não está-se na arena política. Nada é inocente. As boas intenções podem devir paradísiacas ou infernais. Mas mais do que as intenções (o programa ensaiado das vontades) o que conta são os actos.

Rubens, desta perspectiva, é muito mais revolucionário que muitos artisras engagés.

«Connais-je encore la nature? Me connais-je? - plus de mots dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même l'heure où, les blancs dèbarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!» (Rimbaud)

C. & E. (introdução e variante)




Creio que falta outra parte da introdução - por isso reproduzimos abaixo uma variante tardia ampliada



DA REPRESENTAÇÃO

(maio-junho 1983)



The road of excess leads to
the palace of wisdom (Blake)




Introduzir é perverter – é um excesso. Uma luta. Metodológica? Pré-metodológica? – o que se quizer. Defenir um assunto, alinhavar opções, olear a máquina: preparar armas. Ambição? Não: uma rede de subjectividades – corpo e não-corpo. E o seu envolvimento. Emergindo como um campo de investigações. Ou de meditações.

Duvidar das dúvidas, desde que a duvida se encrespou num limite. Estar para lá das dúvidas. Aventura? A identidade dilui-se na paródia da loucura. Torna-se imprescindível beber nas margens do não-identico, abolindo as fronteiras ou atravessando-as em imaginoso contrabando.

Tentaremos recriar uma ética das coisas. Mas uma ética como acção e não como estrita enunciação, onde o não-optimo e o neutro têm cidadania. Uma ética só pode partir do que essencialmente a determina – o corpo e o envolvimento em acção. Uma ética só faz sentido enquanto algo vivo, realizado, e não como algália de intenções.

O corpo, ao justificar as coisas autojustifica-se. Mas o corpo só se dá através da interrepresentatividade. Toda a comunicação é um choque ou empatia de representações.

É o progresso da mimesis que nos interessa. O envolvimento abre-se como narrativa, como exodo mitologico. A dádiva é catástrofe que reverte como entusiasmo. Há também uma mitologia desmitologizante a que não somos insensíveis.

Depois vem o essencial que não está expresso, mas que também não é inexprimivel, uma vez que é através de expressões e representações que o desfrutamos.

Este será o texto de uma montagem quase aleatória que busca a intensidade lirica da festa – entrudo minimizado numa vrota de transgressões, de pluralização da consciência, de maximização de competências.

Uma sintese que se quer total, caótica, excremental – uma opera na qual somos levados a participar. Nós e os que vierem.




variante

1


O Corpo como prolongamento simbólico do Sujeito, mas também como resistência à simbolicidade. O Corpo descobre-se nas interjeições da representação. O Ornamento problematizado como uma espécie de Festa Semiológica, de exuberância florida, como excesso libertário e desejo de revolução. Refrigerados os ímpetos revolucionários, ou deslocados para uma mata de conceitos mais complexa, vasta e pessoal, mantém-se uma lógica contrainductiva de raíz dadaísta. O dadaísmo socumbiu aos encantos da dialética secundado por um nihilismo visceral. Hoje essa dialética, encaminhada pelo demónio da negação, reduziu quer o carácter afirmativo quer negativo de uma expressão autêntica. O valor simbólico, que assenta num maniqueísmo pré-establecido, desaparece dando lugar a enunciados alegóricos que embora veinculando certas forças e imagens simbólicas apresentam mais um estado de coisas do que a redução a certezas. Trata-se de uma descristalização e da valorização das matizes em deterimento das forças. O encanto das incertezas e o pitoresco das contradicções são criticáveis quando confrontados por teóricos adeptos da clareza e da radicalidade. Mas a exactidão reside aí, nesse entre, nesse quase, filho das jesuíticas duvidas metódicas, descendente do sujeito em crise.
O certo é que enquanto subsistirem conceitos ainda são possiveis a metamorfoses do sujeito, seja noutro sujeito, seja noutros sujeitos.


2


Há uma frase decisiva que faz mover este estudo: “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Do excesso entenda-se aqui o suplementar. Não quer isto dizer que para o santo chegar a santo tenha que percorrer as veredas do pecado. Pode acontecer, como em inúmeros casos do cristianismo primitivo. O excesso actua meteorológicamente, é o clima primitivo da exuberância capaz de gerar grandes agitações às quais sucedem acalmias. Ora a sabedoria só se adquire por um saber, por uma prova. A sabedoria é o oposto da abstinência. Pode ser uma dietética, mas sabe exactamente em que é que pode ser moderada. A sabedoria opõe-se quer à gula quer à ascese, e procura extrair o máximo possível de cada degustação. Ao desregramento exuberante sucede-se uma certa delicadeza, com as suas exuberâncias minimalistas.
O corpo está potencialmente disposto para todos os excessos. Quando nasce, a sua fragilidade e inabilidade reduzem a eficácia. A repressão traça um círculo que o protege de se aniquilar, e à sua sombra instala-se a identidade.

A representação é o esforço expressivo de duplicação do corpo. O corpo resiste sempre à duplicação. A representação torna-se autónoma relativamente ao corpo e chega a desejar actuar sobre ele. É esse o sentido da magia. A autonomia da representação é a hipótese de um feed-back que não está presente na natureza. Institui o sacrifício e a dádiva, isto é, motiva a troca e o conjunto de compensações a que a troca obriga. A dádiva prasenteira, ou a divida com restituição forjaram os mecanismos sociais. O toma lá dá cá governa também o comércio com o invisível. O favor, a protecção, a inveja são invocados, assim como a manutenção do estado de coisas. O prolongamento do corpo no seu duplo comercial deforma-o como instituição, fazendo coexistir diversos modos de subjugação e sujeição. A ideia de um corpo onde as acções são governadas pelo máximo de liberdade passa pela correspondência e autarquia das partes, assim como a autarquia desse corpo relativamente a outros corpos. A autarquia não exclui o desejo, mas não se deixa subjugar por ele, embora possa ser atraída por ele.

O corpo é também atraído pelo não-corpo, pela dissolução pura e pelo que o circunda. A sua autarquia não se contenta com o espaço que governa. O desejo de crescimento, de ingestão, de colonização, de propagação e domínio levam-no a incorporar elementos estranhos, a fazer crescer no seu organismo elementos com os quais se cruza ao mesmo tempo que faz surgir em si recusas perante a assimilação ou o cruzamento com o alíegena. A xenofobia orgânica e outras resistências ou dissidências internas surgem sempre que se procede a uma dilatação territorial ou de poder. Outra lei, semelhante à da matéria, é que os nucleos fortes atraíem os fracos como as estrelas os planetas. Por outro lado o crescimento contém em si os germes da desagregação, sobretudo se esse crescimento for muito rápido. A diluição da identidade arrisca-se à loucura. Mas a vizinhança da doença faz com que se ganhe anti-corpos. Creio que o fenómeno urbano e a mediatização planetária criaram uma espécie de heterogenidade inalianável dentro de cada corpo e de cada sociedade. Uma identidade estável está vedada e a autonomia desaparece. Assim cada corpo deseja conservadoramente regressar a uma inocência essêncial, como se existisse retorno onde não há principio. Além disso os elementos heterógeneos já criaram de tal forma ligações e modificaram de tal modo a imagem que de si tinha o corpo que este já não copnsegue viver sem os primeiros.

Poder-se-ia falar de dramatização, mas o drama desaparece com a multiplicação dos actores. O puro drama existia quando o simbólico se degladiava dialéticamente, no reencontro fatal do benigno e do maligno, do anónimo e do individual. Quando esses agentes se dessiminaram e se tornaram híbridos, quando a rivalidade vem de multiplos lados e não é frontal, quando o poder é a intersecção de jogos táticos que não coincidem, de linguagens que não se entendem, de ambiguidades que não são evidentes (ou de pluri-guidades) não há solução que aguente.

Numa unidade familiar composta por duas pessoas não há alianças possiveis, mas quando o número aumenta os interesses diversificam-se e são possiveis alianças insuspeitas. A reacção tipica perante a generalização do problemático é a tentativa de abandono: a demissão, a recusa, o protesto, o suicídio, todos fazem parte do complot nihilista. A assunção, a proposta, a resposta…

corpo e envolvimento - um longo manifesto



Por altura da exposição eu e o Pedro Portugal criamos, a pretexto de um trabalho escolar para a cadeira de Introdução à Estética (prof. Sílvia Chicó), um enorme livro composto por reflexões,citações de citações de citações, imagens fotocopiadas, etc. que é um copêndio filosófico-mitológico, ainda pouco contaminado pelas teorias post-modernas.

A extensão do texto, inédito, no corpus homeosteticum, não poderá ser acompanhada aqui pelas centenas de imagens. Mas daremos um ar da graça.

filhos de àtila 2






O segundo número não é muito eloquente - reproduzimos o meu editorial, um belo texto do xana e os pioneiros do sexo do sr. Vieira

os filhos de àtila



a acompanhar a 1ª exposição homeostética saíram dois números dos Filhos de Àtila, uma revista fotocopiada, assumidamente bad, com colaboração extra de Pedro Cavalheiro. Um manifesto do M. Vieira e outro meu, ilustrado/obliterado pelo Xana surgem aí






MANIFESTO DESPREZO (pproença)






Pelo ecletismo
Pelo confuso fácil
E pelo caos negativo


Assim aguardamos


UM SINCRETISMO
MAIOR
ORIGINÁRIO
E
TUDO


E polimos as nossas belas sílabas
E desfazemos as revolucionárias conquistas modernistas
E encontramos belos pedaços:

SEXO
E TRANSCENDÊN-
CIA




A fuga-fuga para. O velho Egipto
Onde eu gostaria de criar galinhas
E recordar velhas òperas.
Enfim:


OLEEMOS AS METRELHADORAS




A revolução apodreceu nas cátedras e no sacaneia-o-próximo:
Que revolução? - pergunta o hábil - a revolução morta, a ousadia perdida, oh, eu…





Depois existem outros sentimentos como o


1. SENTIMENTALISMO FRENÉTICO COM REQUINTES ESTÉTICOS E COM UM TIPO DE AMOR AVANÇADÍSSIMO.
2. A NÁUSEA DESENCHABIDA MAS NUNCA CRUEL COM ANJOS A ASSOBIAREM CANTATAS.
3. A BELA PALAVRA COMO POR EXEMPLO:




HOMEOSTÉTICA

4. A PAIXÃO ORAL QUE É COMO QUEM DIZ

«Ó INTRATÁVEL INSATISFAÇÂO!»

5. OS CORPOS: ENFIM. OU / E AFINAL.


VANGUARDA

Sem essa palavra feia
E menos os oportunismos
E arrivismos
Que ela implica
E que explica


OS POPÓS-POPS-MODERNISTAS


Mas que são uns rapazes que gostam de passar a ferro e para quem afinal a pintura até é uma coisa séria (o que constitui um ENORMÍSSIMO CRIME).


O RISO (sem adjectivos)
É uma grande máquina de conhecimento.


Toda a aquisição é ùtil - as dissonâncias
São as possiveis aquisições:
E a revisitação de ruinas só mostra o «dis»
Na harmonia do arruinado.


O bom gosto é uma tramoia castratória
E a polivalência
O ùnico funcionalismo possível.



(…)também a educação luso-espartana e o infusionismo-ilusionismo no sublime extático, ou um tipo de xamanismo deslavado e mais impregnado de saudade…




Assim o programa de artifício seguirá nestas passadas despedaçadas da UNIDADE HOMEOSTÉTICA - «a única saída possível para a crise!» - cada um vende o seu peixe como pode!



(…)toda a parte.

Assim a prática do MISTÉRIO QUANTITATIVO, traduzindo o termo cultural buéréré, é o speicechétle do nosso percurso iniciático, reafirmando deste modo um tradicionalismo que redescobre os



MANTRAS


como um valor
atómico.







MANIFESTO (M. Vieira)


Devido a interferências externas só podemos vir a dar este manifesto ao conhecimento público muito mais tarde do que desejariamos. Estamos conscientes de que este evento vai assinar a derradeira certidão de òbito da arte de uma geração que nos surge como o fruto podre da guerra fria. Mas guerra é guerra!

Amoras concubinas
de miosótis enrugados
delicadas parafinas
que florescem nos teu prados!

Chega de resistir à tentação! Que ninguém nos livre do mal! É do conhecimento do degenerado público que já pouca coisa o move das suas batedeiras elétricas e dos mass média! Kaputt! Essa é a nossa palavra de ordem! A nós os prados em que cavalgamos sobre búfalos ao som da límpida bosta!

Os nossos heróis? Lembram-se de Àtila o Huno, de Cleopatra, das espetadas de carne fresca e suculenta, do sabor da manteiga derretendo-se sobre a carne imaculada das santolas! A aventura, o burrego no churrasco, o escutismo louco, descontrolado!

Somos um movimento rude, indisciplinado como uma bola de neve que rola por uma montanha de estrume! Sim, somos o caos! Mas o caos límpido na sua forma ordenada e bruta! O raw caos!

Abaixo as substâncias sintéticas na comida! Porque não tentar criar gado nos apartamentos e acender fogueiras à noite, bebendo vinho de sabor antigo em festa?

É necessário dar ferro a esta anémica sociedade! Decapitar os papuça e dentuça!


outros primeiros manifestos


Manuel Vieira também produziu alguns textos na ocasião - o primeiro é um manifesto, os seguintes perpétuam o espirito Nemo - atópico, viajante, de visibilidade escapista, amorosa, pitoresca, etc. (a fotografia ao lado é o P. Portugal em 82)





SOBRE O ESFORÇO DE GUERRA HOMEOSTÉTICO


O apocalipse está próximo?

Atrás, nas montanhas em frente, surgem fantásticas névoas amarelas. Luzes.

Deus está furioso com os homens? À tarde vou com a minha vaquinha passear. O cenário é campestre.

Os enigmas polulam, numerados, e sempre potentes. Dançam sarcásticamente.

Vêm aí os extra-terrestres, dizem alguns! Mas o rebanho segue o caminho, nos abismos subterrâneos.

A esfinge é bela serena e terrivel ¾

“Será que me esforço por pensar o suficiente?” , pensa o seu interlocutor (o artista?).

A nova imagética freudiana:
os bons velhos simbolos revelam-nos:
“é elementar, meu caro Watson!”.

E a mística? As ciências saturnianas, as tenebrosas maravolhas, o perfume alquímico sempre impossível de matemáticos Frankensteinianos...

Que nos dizem as belas figuras geométricas?
... deve haver alguma pureza no fundo de tudo isso?...

Thais! As mulheres são raínhas, possuem magníficos castelos (palácios?). O homem espião es conde-se nas suas partes submersas.
Porque não gosto de nada?
é fútil?

O paradoxo é constante e não leva a nada. É um mal da época.


3 homens

a) O homem é um lascivo anão, disforme, e à sua volta tudo é sexo, uma espécie de caos orgíaco, violência e tenebras. Rodeia-o um abismo.
b) O homem é um monge fanático e sadomasoquista. Tudo à sua volta é sexo, droga, fé, extase e mêdo do abismo.




Diário de bordo de Jean Sawarick


meu caro amigo:


Ah! Se saisse à rua, que desilusão! Aqui, pelo menos, os sinos tremem com os abalos da terra e os animais movem-se segundo os seus instintos mais básicos.

Pudera eu apaixonar-me pela imagem da mulher na minha cabeça! Pudera eu penetrar nela, mas por mais que caminhe o labirinto é insondável!

Ah! Se eu observasse bem os pequenos e dissimulados cantos!

Caramba! Tanta complicação para dizer que caminho sempre com o paraíso no alto da tola! Não acredito em nada! Não sei do que falo. Olho para a igreja em frente e vejo-a a fornicar apressadamente com centenas de crédulos. Que os fornique bem, pelo menos!

Montes de bosta!

E nós sonhamos com a delicada flor de laranjeira, ò Abdel Sarahafat el Kabir desilude-te das pessoas! É carne para canhão! A multidão anónima... não vale a pena! É o que eu acho, eu que em tempos por eles combati. Combati para que milhões de pessoas vivessem melhor e hoje em dia sou soberbamente elitista.

E nós sonhamos com a flor de laranjeira
com o vinho rodando em festa
com mulheres de Ceuta
sem véus, com anacoretas
bêbados e dançantes.

Ó Abdel, quando os camelos fazem amor dá-lhes pontapés e diz-lhes:
“saiam daí seus porcos infectos!”

Tu queres correr o mundo? Fica antes em casa. Lê muito, pinta, desenha e escreve. Toca no alaúde as pavanas do Carlos Gardel. Os copêndios de Aristóteles, Platão, Pascal e outros senhores doutos que como nós andam à deriva entre o concreto e o irreal.

Anacoreta louco e sulfuroso
foi à panónia provar ratos
beber sangue escanruchoso
de sultões heptomensodríacos
gente doida e sem cura.

Pois o mundo roda,
com a sua infinita paciência,
entre o grande e o pequeno
o cimo e o baixo?

Têm medo das mulheres
e só bebem sumo de abacate.
Sobem para cimo dos terraços
para vêrem a aviação passar.


Jean Sawarick




Diário de Abdel Sarahafat el Kabir


Quando olho para a pin-up da tasca ao lado como-a com os olhos e o meu sexo agita-se como o demo. Neste momento estou a devorar uma folha de papel. Como eu gosto daquele calendário!...

Mas ontem roubei uma motorizada forte, feia e má, da crueldade inerente aos objectos feios e maus, banidos pelos ecologistas, comedores de ratos e de bosta que inecessantemente resvalam na carapaça de titânio do progresso do mundo ocidental, dos saudáveis e radioactivos comedores de hormonas.

Hoje passo a noite no campo.
Sinto-me um pouco frustrado, a minha aventura não teve ainda nada de ídilico, mas as àrvores dão-me a sensação bizarra de um outro mundo mais misterioso que eu talvez já tenha sonhado.

um dos primeiros «manifestos homeostéticos»


Este é o manifesto público do grupo para a populaça com que o grupo se apresentou em Maio de 1983. Não foi o único escrito.




MANIFESTO HOMEOSTÈTICO


Vestirmo-nos com as roupas matemáticas do despotismo esclarecido enquanto lançamos as crises no esquecimento,

fechados numa fraternidade central, num espaço e tempo construído e desconstruído para habitarmos e transgredirmos:

organizando desorganizando, mais ou menos exebicionisticamente,

deixando o corpo para sêr olhado ou reolhado, quais narcisos mergulados nos labirintos da imagem-própria, num espelho que incontrolávelmente é transcendido em simultaneo com o que é espelhado.


O caos existe no meio destas coisas,

é um dos íntimos deuses-máquinas-métodos, uma confusão activa e não-actuante:

uma paixão fria mais-ou-menos à espera.

Mas quem sonha com uma ordem intacta e perfeita?

Contar ou não contar com as Utopias: mera questão de táctica.

E o que é o Homeostético? : pergunta absurda cheia de táxis, caviar, livros de bolso e arsénico...

Fazer confluir todos os gestos para um Uno-Ùnico-Imediato,

ou então construir um deus-manofactura ligeiro/pesado, um deus artesanal

ou então uma pluralidade deles, sagrados e implacáveis, fazendo deslizar para o manufacto o deus e a sua catedral: que as montanhas venham visitar os profetas!

Tudo começa nos orifícios.

Primeiro o ritual festivo da catharsis: o morder, o ganir, o conter, o envolver;

segundo, o deixar-se ser envolvido.

Isto paradoxalmente. Com as unhas cheias de humor negro e branco, num acto máximo-mínimo e vice-versa:

neste caso a escala deixa-nos perplexos porque repleta de fluxos e influxos, de um dentro-fora em movimento.

Regresso e progresso na humanidade, na infância:

chafurdar na fraternidade com crimes revolucionários;

porém, o projecto é sempre o mesmo

¾ revelar a Cidade Nova.

Os poderes mostram-se desta maneira indemonstráveis, em luxuosos intímismos e em exageradas pantomimas,

sem sentimentalismos frenéticos e em nostalgias de ópios com binóculos no além.

A farda faz o militante, o rótulo apenas prefaz o homeostético.

O Homeostético é por isso um animal sábio e absoluto consciente do seu génio.

As estradas dos seus excessos conduze-lhe os palácios da sabedoria,

a meta entre o arrastador e o arrastado (facto magnético) é o aqui-infinito.

A revolução, a política, a regressividade, a solidariedade e o individualismo amam-nos profundamente:

ah, ser heroi, doido, amaldiçoado ou Belo!