do neo-canibalismo ao tretoterismo, o caótico corpus do movimento homeostético, suas tricas, sequelas, etc.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Neo-Cannibal Proclamation & HOMEOSTETIC MANIFESTO





Art is INTENDED for the Hunters of HUMAN FLESH
It is
A frenetic state of captivation


“Gnawing on a bone if possible
is the Portuguese dream of the good life”
(Jorge de Sena)

Eating (preferably human flesh)
Is the foundation of any possibility.
Refusing autophagy
(what will be the flavour of that which we already know)
we propose amorous voracity
because man loves
above all and everything
HIS FELLOW CREATURE

To eat, To err, To defecate
Aureal Disorder
United to PLEASANT ORDER
The Act of Creation presupposes
either
a bucolic inferno
or
an unsustainable paradise

Our starting point is a magnificent sociological situation:

1. no-money. Our country is generically poor without being too poor. We lie on the boundaries of the rich and little else. We are treated with a due level of disrespect, without resentment, by those who own capital. Our future does not look very rosy.

2. art consumption (importation). We import as much as we can, and badly, and we export next to nothing. Due to the lack of a national market or institutions with vision (although some have genuine capacity), we import models from abroad without taking time to digest them. We participate in the legitimisation of the cultural imperialism that accompanies economic colonialism.
State colonialism has ended, with obvious advantages for the ex-colonialists, who continue their business dealings without the inconvenience of having to associate with the masses: full-time dedication.

3. Low level of production. We produce very little because we are bunch of Moors and Southerners. But so were the Greeks and the Renaissance Italians! So we have no excuse. Our low level of productivity derives from a lack of enthusiasm best typified by the Fado and the sweet nostalgia of the Saudade. Idle leisure is good for the soul and is the father of many things, but shouldn’t be confused with inertia.



4. Difficulty in admitting influences. Originality only exists in the minds of vulgar people. Originality only becomes truly original when all influences have been properly digested. In order for this to happen, we must be open to so-called influences. Finally, we must have the courage, little by little, to rid ourselves of such influences. Any innovator harbours a wealth of influences.

We do exactly the opposite. We drift. We allow economic impossibilities to occur astutely. We ensure that chance is never left to chance. That minds pull together and unite. Without clarification there is no room for innocence. Neo-cannibalism proposes a history before history began, an art that dispenses with the need for industry. Hyper-cultish work for the masses. Without fear of egocentricities or insolence!
Why not?

February 1982





I



We dress ourselves with the mathematical clothes of illuminated despotism as we launch crises into oblivion, closed within a central fraternity, in a space and time that has been constructed and deconstructed for our habitation and transgression; organising while disorganising, more or less in an exhibitionistic manner, allowing our bodies to be seen or re-seen, as they narcissistically dive into the labyrinths of our own image, in a mirror that is uncontrollably transcended simultaneously with the object that is therein reflected.

Chaos exists in the centre of such things, it is one of the intimate god-machine-methods, an active and inactive confusion: a cold passion that lies more or less in waiting.

But who ever dreams of a perfect and intact order?

Whether or not to count upon Utopias: a mere question of tactics.

And what is Homeostetics? An absurd question filled with taxis, caviar, pocketbooks and arsenic...

Making all gestures flow towards a Immediate-Unique-One, or build a light/heavy weight manufacturer-god, an artisanal god or a plurality of gods, sacred and implacable, making god and his cathedral flows towards the manufacture: may the mountains move to visit the prophets!

Everything begins in the orifices.

First the festive ritual of catharsis: to bite, to yelp, to contain, to involve; followed by ceasing involvement.
This is achieved paradoxically. With the fingernails filled with black and white humour, in a maximalist-minimalist act and vice-versa: in this case, we are left perplexed by the scale because it is filled with incoming and outgoing flows, inside-outside in movement.

Regression and progress in humanity, in infancy: wallowing in the fraternity with revolutionary crimes; but the project is always the same – to reveal the New City.

In this manner the powers-that-be reveal themselves as un-revealable, in luxurious intimacies and exaggerated pantomimes, without frenetic sentimentalisms and in nostalgic memories of opiates, with binoculars focused on the beyond.
The uniform makes the soldier, but the label only completes the homeostetic.

The Homeostetic is a wise and absolute creature, conscious of his genius. The roads of his excess lead him to the palace of wisdom. The limit between the dragged and the dragger (magnetic fact) is the infinite-here.
Revolution, politics, regressivity, solidarity and the individualis me, they love us profoundly:
oh to be a hero, crazy, cursed or Beautiful!


Pedro Proença, 1983
in a pamphlet for the “Homeostetics” exhibition, ESBAL Exhibition Hall, May 26 to June 9, 1983

KNOSSOS


Knossos é uma «história» de M. Vieira, modelo crú, romantico, desconcertante da prosa romanesca homeostética.



I

Onde o autor fala do sistema político de Knossos

“Toma, minha grande vaca, toma! Toma!!” – Kassanor, último rei de Knossos, resfolega, sua, chicoteia a pobre rapariga nua, possesso por uma onda de luxúria cega. Dois dos seus sequazes utilizam tenazes, vibradores, alicates, rodas de oleiro, serrotes, alfinetes, tudo o que há à mão.
O rei grita de alegria sádica. Três vultos, na mesma sala, assistem a tudo. O palácio de cores quentes cai aos bocados, corpos nus e sujos de vinho, comida e sexo espalham-se pelas suas salas imóveis, ressacando. Só a grande sala está agitada…
Hoje é o último dia da semana de debocheorgiasbacanais, na qual tudo é permitido ao rei. Hoje, ele tem que aproveitar ao máximo, pois é o último dia do seu reinado. O céu vermelho parece devorar a cidade e corvos vão e vêm sem cessar. A multidão agitada aguarda fora do palácio, enquanto algumas raparigas virgens são sacrificadas ao deus baal (verificar grafia; maiúscula?), formando fogueiras por toda a cidade. Algumas pessoas morrem sufocadas pelo fumo. A frota aqueia está próxima. (os aqueus, bárbaros vindos do Norte pretendem invadir a decadente e corrupta cidade de Knossos.)

O rei continua a resfolegar. Os seus olhos brilham como berlindes. Enfiou a sua picha no cu quente de Gabriela e atinge o clímax. Os seus movimentos são brutais e Gabriela, que sangra por todo o lado, solta gritos de dor. Quando o rei, por estes excitado, atinge o orgasmo, o sumo-sacerdote sai da escuridão e estrangula-o com o garrote.
A tempestade acalma de repente…
Os sacerdotes abandonam o corpo do rei aos corvos, que, depois de o devorarem em segundos, deixam a cidade.
Os sacerdotes saem do palácio. “O rei morreu, dizem ao povo”.

Ah! O sol nasce das nuvens!
Uma chuva de flores cai sobre a cidade. Por toda a parte se? dança alegremente. As mulheres jovens enganam os seus maridos velhos e prestam-se festas em honra da vida, da juventude, da primavera, da beleza. Grupos cantantes passeiam pela cidade regenerada, ao som de liras e flautas. O povo traz o seu novo rei pelas mãos. É jovem e belo. Governará mais quatro anos, por mais um ciclo.

Fim da primeira parte *

* Este documento foi-nos gentilmente cedido pelo museu da Acrópole de Atenas e foi escrito pelo poeta do séc. (?) KANNADASSUKAK, O DEMENTE, em “A política na nossa era”.



II

Diálogo sobre o poder

Gabriela sentara-se debaixo de uma oliveira nos campos perto da cidade. O céu estava azul e o sol banhava-lhe o rosto. Repousava. O cantar dos pássaros ecoava pela tarde e o cheiro da terra e das ervas misturava-se com o do seu sexo, quando, de longe, surgiu uma bela vaca, na idade madura. Meteu conversa.
Arf! Arf!
Céus! – disse Gabriela. Uma vaca a ladrar?
É verdade. – disse a vaca. Mas posso fazer muito mais. Ainda não viste nada.
Gabriela estava irritada. De repente, tinha-se apercebido de que tinha uma vontade enorme de fazer amor. Mas nunca com uma vaca. Que veio fazer aqui uma vaca?
A vaca falava.
História da vaca:

“Sobre estes campos que vê agora, viveram outrora muitas vacas bonitas como eu. O verde da erva fazia parte da nossa vida e vivíamos despreocupadas, ruminando calmamente. A erva nunca parava de crescer, pois as nossa fezes estrumavam a terra e dela saía muita erva, verde, cheia de proteínas. Um dia, chegaram os cães, vindos da distante Ásia Menor. Aqui, na nossa ilha, plantaram um império. Eram uma raça de guerreiros e comerciantes selvagens. Aproveitando-se da nossa inofensividade, provocada pela nossa vida sem problemas, abusaram de nós, dizimando-nos aos milhares para nos comer, destruindo todo o nosso lírico universo.
Mas algumas das minhas irmãs organizaram-se (clandestinamente, pois na época eram proibidas reuniões de mais de duas vacas) e formaram um exército. Por fim, e, como dizem os americanos, “to make a long story short”, o nosso exército defrontou o dos canídeos na célebre batalha de Manabara. Foi um massacre. Todos os cães morreram e das vacas só restou a minha família, da qual sou a última sobrevivente. Não tenho descendência”.

Gabriela estava aflita. Tinha cada vez mais vontade de fazer amor e não sabia como se livrar da vaca. Queria pelo menos masturbar-se, estava muito húmida, mas como, com aquele bovídeo presente?
“Nada a fazer”, pensava Gabriela, quando, de repente a vaca foi trespassada por uma lança. Diante dela estava uma horda de guerreiros aqueus, que iam conquistar a cidade.
Que sorte! , exclamou a Gabriela. Vêm em muito boa altura .

Fim do II capítulo

Ainda hoje na Liga Aqueia os velhotes contam como a invasão aqueia foi detida por uma só mulher. Consta que nem os 300 guerreiros aqueus foram capazes de satisfazer Gabriela, que correu atrás deles reclamando um pouco mais de calor humano. Os aqueus correram precipitadamente para os seus navios. Os que caíam eram pisados. A confusão foi tal que, à saída da baía, os barcos chocaram, afundando-se, e os aqueus, não querendo voltar a Creta a nado com receio de que Gabriela os esperasse, nadaram em direcção ao seu país, afundando-se todos pelo caminho.

Menos um: Arménio.
Arménio foi parar a uma ilha.

Ali está sob a sombra de uma palmeira.

“Porque fui poupado? Porque não tive a mesma sorte dos meus irmãos? Mas bolas para isso! É primavera. É primaveraaaa!” – gritou agitando os braços. “Estou cheio de amor e tudo é harmonia.”
Saltando e correndo, Arménio foi-se perdendo nos labirintos da floresta. Tropeçou e caiu, perdendo a consciência.
Quando a recobrou, tudo estava azul e sentiu uma sensação de movimento. Abriu uma janela e viu que estava a ser transportado numa liteira por dois hámsteres vestidos de bispos, correndo velozmente pela estrada de tijolos amarelos. Passaram por uma ponte romana, por uma paisagem de esparguete, depois de uma paisagem de maminhas, uma de moedas verdes enormes, uma de autocarros da Carris suspensos no ar, uma de enormes plantas carnívoras, que quase os iam devorando, até que pararam no alto de uma colina, onde havia um castelo enorme em forma de moinho de pimenta. Entrou por uma grande porta e passou por um corredor ladeado por grandes guardas da Carris com cabeças de vacas azuis. No fim de tudo estava o trono do mandarim, um coelho velho e chato, com um olhar muito melancólico e com chifres de vários animais formando uma densa confusão sobre a sua cabeça.
Como todos os mandarins, tinha compridos bigodes pretos que chegavam ao chão. À sua volta, castores agitavam as caudas para que a névoa púrpura que saía constantemente das narinas do mandarim se dissipasse, e bailarinas dançavam nuas sobre pedaços de vidro.
Arménio estava perplexo.
“Que querem de mim?”, disse ele.
O coelho bateu as palmas da mão e toda a gente desapareceu.
Depois falou assim:
“Tenho um grande problema. Se me ajudares, farei de ti um homem rico.”
“Que problema?, disse Arménio com inocência.
“A minha mulher encorna-me”, disse o mandarim.
“Mas como posso eu ajudar-te?”
“Só tu, um estrangeiro, me podes ajudar. Agora ouve bem: a minha mulher está lá em cima” – e apontou para a densa massa de cornos sobre a sua cabeça –, “chegada a noite trepas pelos meus cornos. Depois penetras no seu quarto e vês com quem ela dorme. Depois vens, e avisas-me.”



Chegada a noite, e depois de um bom banquete, Arménio subiu pelos cornos do rei acima. Depressa percebeu que eles formavam uma floresta. De cada árvore da floresta brotava o sexo de um animal.
Chegou a uma clareira com uma casinha de madeira no meio, a porta estava aberta e ninguém em casa. Viu que a casa era composta unicamente por um quarto, no qual uma grande cama, cheia de almofadas, cetins de todas as cores, ligas, cuecas e meias de mulher, ocupava a maior parte. A parede era encarnada e tinha nus do século XVIII na parede. Havia também uma janela.
De repente, Arménio ouviu um ruído e escondeu-se debaixo da cama. Aproximava-se uma mulher muito bem feita e bela, como todas as mulheres destas histórias de cornudos. Seguia-a um esquilo.
Debaixo da cama, Arménio sentia-se muito mal. Viu o esquilo ir embora depois de saciado. A seguir veio o peru, depois deste saciado, um cavalo. E por aí adiante.
Toda a noite se sucederam estas visitas animalescas. Por fim, a mulher infiel disse: “Bom, parece que por hoje acabou.”
A partir daí começou a dormir.
Arménio sentiu-se invadido por um grande tesão. Pouco a pouco, foi fazendo um buraco na cama. Depois, foi começando a sentir as carnes tenras da devassa. Lentamente, penetrou dentro da sua rata.
“Ah!” – pensou Arménio – “A maldita nem notou!” Começou a fazer os movimentos com maior vigor. Como esta não notasse, enfiou lá a perna. Depois o braço e por aí adiante.
Arménio descobriu então que o maior problema do rei era não poder trepar pelos seus próprios cornos.
Então, enquanto a mulher dormia, meteu as pernas de fora e começou a caminhar.
Passou pela floresta e desceu os cornos até ao rei.
O rei, ao ver a sua mulher caída do céu, exclamou: “Desmodina! Meu amor! Voltaste!”.
A mulher não compreendeu como ali tinha ido parar. Então, Arménio saiu de dentro da ciclópica vulva, envolvida em molho.
O rei, ao ver tal coisa exclamou:
“Que é isto?”.
A mulher, atónita, não compreendia.
Arménio, sentindo-se em perigo, disse: “PAPÁ! MAMÃ!”.
O rei soltou então um sorriso:
“Um filho! É o meu filho! O nosso filho! E que bonito que ele é! Mas… espera… é igualzinho ao homem que mandei espiar-te! Até ele tu seduziste! MALDITA!”
O mandarim sentiu o desgosto invadir-lhe o coração.
Cambaleando, com os olhos muito abertos, avançou pelo corredor.
Desceu escadas. Tropeçava mas levantava-se outra vez, cego na sua dor, só pensava em vingar-se do universo. Sim! Não foi só culpa da mulher! Todo o universo o atraiçoou! Errou por corredores e catacumbas só por ele conhecidos até chegar a uma sala repleta de computadores, botões e luzes de várias cores que acendem e apagam. No meio da sala estava uma alavanca, o coelho agarrou na alavanca e a suar, disse:
“Vou desencadear uma grande explosão!”.
No instante em que ele ia fazer isso ocorreu um milagre, atribuído hoje a Santa Eulália ou a Santo António de Pádua, que consistiu num grande nevão que caiu sobre o castelo de pimenta ficando este soterrado e destruindo todos os seus habitantes. Foi mesmo uma sorte.

Fim do II capítulo



Entretanto, numa longínqua aldeia do Nepal, três raparigas dançam danças indígenas. Um sujeito de calças gordas fotografa.
Fotografar, fotografar sempre. Registar a todo o momento. O olho da máquina não se cansa. Fotografar. Fotografar para esquecer que a Aninhas o trocou por um bom pianista de jazz. Fotografava freneticamente quando surgiram 2 grandes cavaleiros mongóis.
Foi violentado e humilhado, além de espancado. Como tinha ele ido parar àquele canto obscuro do planeta? Esquecer, esquecer a Aninhas… Meu Deus… Com um pianista de jazz… porque não com um tocador de batuque africano num ambiente de castanhos-escuros ao som ritmado do sexo sexo… a Aninhas…
Delirava assim disparatadamente quando reparou que não via de um olho. Era de noite e estranhos seres começaram a surgir da escuridão. Ele estava dorido, cego de um olho e totalmente inseguro.
Não tinha a sua máquina. Tinham roubado a sua máquina!
Apareceu uma fada montada em cima de um vendedor de apólices de seguros relinchante. Montou também com ela. O vendedor galopava a toda a velocidade. A fada falava.
“Sibili Sibilim, há três anos que galopo e ainda não vi ninguém como tu. Como te chamas?”
“Gaspar. Gaspar Ledeboche e tu és uma fada linda sibili sibilum, sim, és linda e estou-me nas tintas para a Aninhas mais o seu tocador de piano, e para o mundo dito normal e amo-te e galopo a toda a velocidade e o vento bate-me na cara, respiro o ar frio e húmido e puro da floresta às 6 da manhã, as folhas batem-me na cara, as minhas mãos acariciam os teus seios, deixemos este infeliz, não temos o direito de montar em ninguém, mesmo num vendedor de apólices de seguros, quem sabe se um dia ele não se tornará uma borboleta, como nós, tantos pássaros, uma flauta de madeira que ecoa pelos bosques, que respira, que é um pulmão generoso.
Como sabe bem beber tudo isto… sim, sim sibilim sibilum, aconcheguemo-nos, é de manhã e está frio, os teus cabelos claros no meu peito sibilum dundadarum
Viva o júbilo que provém do conhecimento da natureza que habita em nós.”
O sol está mais quente agora. Gaspar e a fada avançam em direcção ao horizonte, no qual está uma estalagem.
Dois homens comem de olhos esbugalhados trocam-se olhares vorazes e devoradores. Tudo é devorado, os bocados de comida que caem pelos cantos da boca logo são apanhados, num frenesim de egoísmo armazenamental. Come, come. Leva a mão à boca, cava a comida como areia, o teu cérebro fica areia.



INTERMÉDIO EXPLICATIVO
Tudo isto não passou de um pequeno desvio. Mas voltemos a Creta e à nossa heroína Gabriela.

CAPÍTULO IV

Na estação de serviço Mobil, três guardas da Polícia Militar passeiam pelo jardim que está perto, com um ar sério. Surgem das árvores orangotangos que lhes atiram com carris de metro. Um velhote atira milho a pombos com capacete nazi. No lago, a proa de um Boeing 477 emerge, dando abrigo aos cisnes.
O guarda da estação de serviço já não possui gasolina há muito tempo, criou raízes na terra, saem-lhe arbustos das costas e folhas do nariz. É verde.
Os caixotes de lixo municipais soltaram-se dos postes e tentam abocanhar os transeuntes incautos. É tarde. Está muito calor, só se está bem no jardim, à sombra de um carvalho centenário”, pensa Gabriela. Knossos brilha ao sol.
Enquanto uns fazem a sesta, outros filosofam:
– “És um velho imbecil, Heraklion! És um recalcado, um egomaníaco depressivo, a tua sisudez é feita de sacrifícios estéreis, és estéril, chato, saem-te arbustos das costas, e folhas do nariz. Além disso, és verde. Estás cada vez mais vegetal e as tuas teorias criam caruncho. Hão-de apodrecer ao sol brilhante de uma nova era em que as borboletas voem sem cinto de segurança.”
– “Podes falar, eucalipto, mas não podes negar que a tua aparente volúpia é feita de tijolos de concreto. És desleal, pois eu fui o teu mestre e um bom pupilo, não se revolta contra o seu professor. Sou bem mais douto do que tu. Rio-me das tuas transmutações alquímicas, que só consegues excitar as mentes de uns escassos mentecaptos de luxo, que não tiveram suficiente carinho na infância. É verdade que sou verde mas tu és castanho e, como eu, estás pegado ao chão por bifurcadas raízes. Do teu cabelo, que parece um emaranhado de lentilhas, surgem setas de várias cores, mas cada um aponta para um lado. És feio, Eucalipto.”
Nisto surge Gabriela. Ouvindo a discussão começa a despir-se.
– “Que é isto?!” – dizem os filósofos em uníssono.
Gabriela brinca com os seus opulentos seios e exibe escandalosamente o seu entre as pernas.
– “Raios!” – diz Heraklion– “Tenho de fazer qualquer coisa!”
– “Mas o quê?” – diz Eucalipto – “Estamos presos pelas raízes da nossa própria sabedoria.”
– “Porque é uma sabedoria cretina.” – diz Gabriela – “Apesar de todo o vosso saber, não podem sair daí e vir cumprir o vosso papel natural.”
– “Bolas, Heraklion! Arranquemos estas raízes que nos prendem!”
– “Impossível, meu colega. Estamos deveras presos.”
O coro: – “Amo esta mulher. O seu corpo de curvas subtis esvoaça com leveza e o seu cabelo tem ondas como o mar. Navego. Navego no seu olhar de uma luz infinita e sinto cada vez mais perto a eclosão do caos. As suas apetecíveis coxas brilham ao sol e reflectem o meu rosto deleitado de tanto respirar e cheirar essa mulher.
Sereno, defronto o perigo de cair da minha linha de equilibrista brista Brígida era uma bela moça do campo Brígida, naquele dia apanhei-te pela frente as saias caíram na estrumaria eu vi os teus seios e vi a diferença.
Oremos a Zeus: Ó Zeus! Ave Zeus cheio de subtileza, cantado seja o vosso nome, bem considerada seja hoje como amanhã, como na terra nos deu ontem naveguemos serenos.
Eucaliptdonisilastrophagya.

Mas deixemos KNOSSOS por 1 momento e vejamos:





IVVIIIXX capítulo

Arménio sai debaixo dos escombros e canta uma melodia céltica quando sente que os seus pés não estão assentes em terra.
Voa por arco-íris de subtis variações. Um tapir abre a janela de uma nuvem e deita fora o lixo da casa. Arménio pensa em como gosta de manteiga de amendoim e de tudo o que é verde-alaranjado e em como a vida pode ser divertida se conseguirmos tocar num ser contrário e sentir ecoar em nós um encadeamento de processos que nos põem a voar.

C. & E. (o que vem)






A significação informulada é sempre sexual. (N. O Brown)

A ideia de harmonia, de solução, de eliminação das desordens,
de superação de toda a contradição, do acabamento político é,
como agora sabemos, uma ideia massacrante.
Começamos a ver todo o mal que existe na ideia de boa sociedade,
todo o horror que o mito de felicidade pode impor.
O futuro radioso deve morrer.
Está aberta a via do devir.
(Morin)

What’s the next?






Agora o final. Ou a (des)contenção do final. FAY CE QUE VOULDRAS. Abertura para um próximo. Para um próximo que ainda é nenhum, para o que se quizer.

As nossas oficinas buscam uma academia. Essa academia acolhe-nos numa entrerrecusa ou num transpretexto.

Um nada. Uma liberdade. Um simpósio quase romântico e místico. Ou meteórico, apaixonado e tedioso. Acedemos ao esquecimento. E no esquecimento há a perpetuidade.

A perpetuidade cristaliza-se num zero grávido.

Quem conhecerá os frutos fartos desse zero?

C. & E. (interlúdio)










A insistência, comumente exaltada
de que o progressivo é um lento movimento
de ruptura com os seus pequenos regressismos
com as suas orgânica sistémicas,
não nos obriga às unidades isoladads
mas antes excita as suas mecânicas
de ligação-corte com os exteriores:
novas unidades sistémicas nas quais
como parte se é actor. Mimesis interior
e mimesis exterior: acreditar
numa complexidade-limite não-atingida
e num processo revolucionário em curso.

Somos agora forçados às linguagens
desejantes, e nas linguagens amaremos
as liberdades mais do que possiveis –
explora-las-emos intereligando-as
desfazendo-as, dispersando-as e reunindo-as.










A consciência de um Disperso é ela mesma
factor de Unidade – conjunção maneirista
de contrários, através do riso, da catástrofe,
em òpera disfarsada de opereta –
o tragicamente risível.

A mudança existe para repousar,
é gesto, diluição no híbrido –
e se o esquecimento deforma
também a memória transforma
regenerando e iluminando mundos.

C. & E. (liberdade)


Juri - fazer tudo para não tomar parte em nenhum deles. (Flaubert)

O homem realizar-se-á suprimindo as fronteiras que paralisam
a sua actividade conceptual e que o conduzem a classificar tudo
e reduzir tudo.
(Morin)

Je ne suis pas dans l’espace et dans le temps, je ne pense pas l’espace et le temps. Je suis à l’espace et au temps, mon corps s’applique à eux et les embrasse. Je ne suis pas devant mon corps. Je suis dans mon corps, ou plutôt, je suis mon corps. (Merleau-Ponty)


Uma fruição moral não é necessáriamente uma fruição judicial, e pode ser uma fruição profilática – as exigências estéticas passam por aí.

Marinetti proclamava a guerra como única higiene do mundo – apelo futurista e heraclitiano à catástrofe.

Apocalipses simétricos – toda a decadência é contemporanea da eternidade.

A obra não se explica como um corpo ideal, mas como corpo utópico. Tornar a obra post-apocaliptica e metacatastrófica é dar ao corpo a visibilidade das suas invisibilidades.



Se existem elementos corpusculares constitutivos na obra eles apenas interessam como desejo e alegoria descritiva, como fachada, muro, de uma cosmogonia outra que se inscreve nas células vazias do elemento actuante – o corpo.

O corpo opõe-se ao Corpo. O corpo nárcisico, gestual, performativo, difere do corpo universal, do corpo que é conquistado ao inconsciente.

A liberdade é o espetáculo do não-espetacular.

A organização dos espaços busca na incerteza, na consciência do incerto, nas complexidades alargadas – destalibilização das instabilidades que se equilibram, mutuamente.

Não a economia que simula a imediaticidade espetacular. O minimalismo é o ascetismo de consumo, a evidência pseudo-moral.

A «boa-forma» é uma impostura moral que tenta desviar a evidência do corpo, e a politica como transmutação de corpos. Queremos uma politica transcomunicacional, sexualizada, aceitando o espaço, fazendo desabroxar o envolvimento.

A arte é uma necessidade luxuosa, um reequilibrio feito de desiquilibrios – isso é homeostética.



A história das convenções passadas torna a nossa actualidade mais futurista – é o passado que faz a profilaxia que garante a generosidade do futuro através deste presente.

Escrevemos - «contar ou não contar com as utopias, mera questão de táctica». – e a táctica aqui é contra o cepticismo (a pesar de um salutar cepticismo) através de um dogmatismo metamórfico.

Substituição constante de convenções. Experimentar para desocultar o erro. E mais do que nunca o perpétuo encontro com o desconhecido que se dissimula no conhecido. Nada é suficientemente conhecido. Contra o mêdo!

Não há limites para os universos. Os universos são sempre insuficientes, um work in progress. Avançar. pelo vago, pelo indefenido, desdramatizando os pavores, nascendo para novas necessidades.

C. & E. (gesto)



Une science humaine ne peut être que celle
du sens e du contressens.

Um paradoxo resolve-se quando situamos as duas proposições
antagónicas num sistema de referências enriquecido
onde aparece a sua complementaridade lógica.


(Morin)

Na esfera estética, o impulso mimético afecta antes a mediação,
o conceito, o não-presente. O elemento conceptual, enquanto entremeado, é inalienável na linguagem e também em toda a arte,
e transforma-se assim em algo de qualitativamente outro
em relação aos conceitos enquanto elementos distintivos
de objectos empiricos. A introdução de conceitos não é identica à conceptualidade da arte; a arte não é conceito nem intuição
– eis porque protesta contra a separação.
A arte é intuição de algo não-intuitivo,
é semelhante ao conceito sem conceito.
Nos conceitos, porém, liberta o seu estrato mimético,
inconceptual.

(Adorno)



É a conceptualidade e a inconceptualidade do gesto assim como a consciência ingénua/culta do mesmo, que pode servir como aposta. A exploração do gesto tem sido feita maioritáriamente de uma forma esvaziada de criticismo, ocultando a «conceptualidade» quer do gesto quer do ornamento.

As poucas tentativas consistentes nesse sentido foram levadas a cabo por Henri Michaux –

«ce sale flot noir, qui se vautre, demolissant la page et son horizon, qu’il travesse aveuglment, insupportablement, m’oblige à intervenir.»

«Dans l’ecriture, certains jambages s’elançaient démésurés, faussant le mot, sortant du mot, leur graphie emportée à part par leur èlan propre, et aussi par l’appel pressant à la represantation et à la figuration de ce dont il etait question et dont, maldroites et insuffisantes, perçaient les soudaines, rapides tentations, les ébauches trot tôt interrompues».



Se a presença do Corpo no Gesto nunca foi negada, também ninguém como Michaux teve a necessidade da apresentar como «antropomorfica», «fálica». A ocultação desta evidência foi saudada como progresso, como emancipação. Enquanto isto se passa Michaux é claro:

«Peinture par oubli de soi, de ce qu’on voit e qu’on pourrait voir. Peinture de ce qu’on sait, expression de sa place d’ans le monde.»

Insiste também nos mandalas e na desagregação do ego em alternativa ao seu massacre, como em boa parte nos artistas ditos expressionistas abstractos:

«Le massacre peremptoire, ou delicieux de l’ego et de ces unités construtives, c’est du passé».

A aceitação experimental do mundo, não uma luta infernal contra ele.

Toda a história de arte está imersa em gestos, em ideias-gestos, em programas-gestos, em conceitos-gestos. Não é o gesto a expressão no actual dos inevitáveis equivocos «miméticos»?

Substituição continua de gestos, substituição mimética.

A conceptualização é a convenção, o òbvio, o dizivel.

O inconceptualizável é o que fica.

A realização artistica toca as arestas das regras, regras que se querem não-defenitivas, mas desprobabilizadoras. Regras do não-determinante. Para um improvavel Possivel.

C. & E. (ornamento)


«as lovers will contrast their emotions in times of crises
so am I dealing with my environment»

Nunca deixamos a nossa vida.




Existem dois aspectos que roçam constantemente o conceito corpo e o conceito envolvimento: o gesto e o ornamento. Ambos ora se afastando, ora se aproximando. Se o gesto teve um papel priveligiado dentro do teatro do «modernismo», já o ornamento constitui uma espécie de tábu, por não tocar as àreas da funcionalidade. O ornamento foi esquecido e afastado para longe da civilização do trabalho e da acção, continuamente condenado pelos teóricos e assimilado frequentemente ao kitsch. O aspecto decorativo era encarado pela sua imediaticidade visual, pela sua concorrência para um objectivo, pela sua harmonia formal, pela sua agradabilidade aos olhos. Esqueceu-se a plaisanterie, a brincadeira luxuosa, e, fundamentalmente, a grande presença do envolvimento. A pattern painting constitui uma tentativa frustrada no sentido de fazer reviver tal envolvimento – mais globalizante do que se julga. O ornamento, no entanto, não pode viver uma aventura isolada do corpo, como mera continuidade em relação aos projectos minimais. Não basta escrever figura. Não basta ornamentar – é necessário, através desse acto lúdico, avançar para uma àrea em que um projecto de vivência esteja incluído.

O ornamento revolucionário. O ornamento de uma sociedade futura. O ornamento para o desconhecido.

A arte das sociedades ditas primitivas é prodiga nisso. O ornamento é o sinal da indissolubilidade entre corpo e envolvimento – é do domínio da «relação», da «abertura», da investigação progressiva do espaço. Neste tipo de investigações o ornamento é contraposto à logica da proporção (que implica unidades fechadas, íntimos, duplos, uma lógica ancorada na mortalidade) de que a tradição renascentista viveu e que se encontra em agonia.

A pattern viveu dissociada do envolvimento porque este envolvimento era agressivo. Há que fundar novos envolvimentos – regressar à matriz, utópicamente e romanticamente, viver a aventura de uma nova civilização.

A confusão (a realidade existente) entre efeitos, produção de efeitos e ornamento levou à ruptura com um público, deixando imensas lacunas por preencher. Este é arrastado por medias que o fascinam, mas que não compreende.



Ora o gesto, pai do arabesco, é a reacção irracional a situações de crise: o gesto aproxima pelo agir, correspondendo a uma necessidade afirmativa do sujeito, implantando a sua presença através de marcas ou rastos. O gesto é uma emergência narcísica que visa a liberdade, mesmo que se trate de uma aparente sublimação – expulsão de energias reprimidas com a passagem a um envolvimento maior, na qual a presença do sujeito se vai dilatando: presenca sexual e presença social. A presença politica e a religiosa, filhas da moral e do controle, só vêm mais tarde.

Com a dilatação já não há um imperativo egoísta porque a necessidade de marcação dissolve-se e abre-se na consciência de que tudo devem exterior, chegando a uma humanidade sem «rosto». Esta torna-se numa acção para o envolvimento, numa transformação do mundo.

A permanência do gesto nestas situações é moderada e menos violenta, pois já não serve a esconjuração imediata de espiritos, nem uma transcendência primária, mas é útil para a devir de uma sociedade menos injusta graças à prática de uma desconstrução permanente.

As consequências do alargamento do gesto levam a enfrentar as «grandes escalas». O gesto torna-se um hino planetário: paisagens flutuantes. Pode ser um motor do progresso da mimésis, mas nunca será o único motor desse progresso (o único que verdadeiramente interessa ao homem): torna reconhewcíveis os basic scribbles, desfigura os códigos para os transformar, mas não completa a operação. É um acto, ainda assim, irresponsável, infantil - «les enfants qui naissent ne conaissent rien de la vie, pas même la grandeur». Este ser-se infantil é como a espontaneidade das doutrinas taoístas, uma experiência mais do que um conhecimento, uma intuição desprovida de moral.

Mas, e insisto, é na vontade do gesto (por mais que este crie um ambiente ingénuo, festivo, irresponsável ou até egoísta) que deve radicar o motor de uma sociedade nova, entre o marasmo magnífico, explêndido, do devir louco das convenções.